O apoio ao quotidiano dos idosos é uma das áreas em que a tecnologia mais tem evoluído, com o aparecimento de soluções que garantem a autonomia e a segurança do utilizador.

Com o aumento da esperança de vida o número de idosos a viver sozinhos tem vindo a crescer. De acordo com os dados do último Censos Sénior, realizado pela GNR no início de 2019, são mais de 45 mil os idosos portugueses a viver sozinhos ou isolados. E, se o desejo de manter a autonomia é desejável, nem sempre isso é possível sem alguma monitoria de terceiros. Atualmente a evolução tecnológica permite o acompanhamento à distância e a manutenção da qualidade de vida de quem escolhe preservar a individualidade na velhice.

A Altice Labs tem vindo a desenvolver soluções que permitem não só acompanhar a atividade e estado de saúde geral do utilizador, como lhe garantem apoio para situações corriqueiras do dia-a-dia. Um desses produtos é a plataforma SmartAL (acrónimo para Smart Assisted Living), uma solução de monitoria remota, de caráter pouco intrusivo, que tem por base a instalação em casa dos utentes de equipamentos que permitem a recolha, o mais automática possível, de um conjunto de indicadores que podem ser usados para dar uma imagem do estado de bem-estar do indivíduo monitorado.

“Para o desenvolvimento da SmartAL foram tidos em conta os conceitos de utente, cuidador formal e de cuidador informal, sendo que o cuidador informal pode ser um vizinho, um amigo, um filho ou um pai – qualquer pessoa escolhida pelo utente”, explica Bernardo Cardoso, responsável pela área de investigação em televisão, digital e internet da Altice Labs. Além de sinais vitais, esta plataforma de telemonitoria vai acompanhar outro tipo de dados. “O objetivo é coligir uma série de indicadores e colocá-los de forma integrada numa plataforma central a que os cuidadores formais e informais podem aceder, ou mesmo a plataforma gerar um sistema de alarme para informar cada um deles caso falhe algum parâmetro”, explica o responsável da Altice Labs.

Ao contrário de outras soluções mais antigas desenvolvidas pela empresa, como a plataforma Medigraf, a SmartAL é uma tecnologia bastante mais recente. “O início do desenvolvimento já tem alguns anos, mas enquanto plataforma disponível ao público é recente, tendo entrado há pouco tempo na fase de promoção e disponibilização comercial”, admite Bernardo Cardoso. De momento, é uma solução que apenas pode ser disponibilizada aos utentes através de entidades ligadas ao Serviço Nacional de Saúde ou de empresas seguradoras.

“Do ponto de vista do desenvolvimento, a plataforma ainda tem muito por onde evoluir. Está agora a ser introduzida no mercado e a nossa expectativa é que quando isso acontecer se detetem gaps, evidenciando funcionalidades que possam ser úteis”, explica Bernardo Cardoso. Um dos aspetos que está a ser desenvolvido é o uso pelo utente de uma pulseira semelhante às usadas no mundo o fitness, a qual ficará equipada com um conjunto de sensores de movimento, horas de sono, passos dados, batimento cardíaco, etc. “É uma maneira fácil de remotamente se monitorar alguém e, caso se registe alguma anomalia, gerar um alarme”, exemplifica Bernardo Cardoso que admite que a utilização de outros cenários com a utilização de equipamentos de domótica, como câmaras remotas, existe mas coloca problemas de privacidade.

Outro dos vetores a ser explorado é a ligação da plataforma à linha Saúde 24, de modo a dar aos doentes crónicos um acompanhamento continuado, mesmo que seja por via telefónica. “Quando um destes pacientes telefona, todo o seu histórico de indicadores de sinais vitais pode estar disponível para o profissional de saúde, de modo a que este tenha uma visão mais integrada do doente”, afirma o responsável da Altice Labs.

Sendo esta uma plataforma destinada a um público mais idoso, nem sempre familiarizado com a tecnologia, houve a preocupação de incluir a televisão interativa como elemento central de comunicação com o utilizador. “Os seniores passam boa parte do tempo em frente à televisão e a nossa participação inicial previa o recurso a um dispositivo de grandes dimensões – o televisor – como ponto de display de informação, visto que muitos seniores têm dificuldade em usar um smartphone ou mesmo um telemóvel normal”, explica Bernardo Cardoso, para quem um dos elementos diferenciadores da SmartAL é justamente a utilização da televisão como dispositivo de interação na casa. “Tanto pode ser usada para receber um lembrete para ir tomar determinado medicamento, como para avisar que já está parado há algum tempo e está na altura de andar um pouco, ou até para lembrar que tem uma consulta médica no dia seguinte. E é também um local onde o utente pode colocar os dados de peso e tensão arterial ou onde aparecem estes dados caso haja uma medição automática”, refere Bernardo Cardoso.

No que toca ao dispositivo móvel associado à plataforma, o foco está no papel do cuidador. “Por exemplo, a um cuidador da Santa Casa da Misericórdia, o sistema permite-lhe saber quais os utentes a visitar num determinado dia as diferentes tarefas a realizar com cada um: lavar, dar de comer, trocar a roupa de cama”, afirma ao responsável da Altice Labs.

Apesar das vantagens, de momento este não é um tipo de serviço que possa ser subscrito pelo consumidor final. Além da plataforma ter integrada uma série de equipamentos de referência que, a existir a possibilidade de subscrição, serão entregues ao utente, o provider que fornecer o serviço tem de assegurar que existe um call center que lhe está associado, com uma equipa a acompanhar a monitorização dos dados. “A plataforma existe, permite uma série de serviços, mas não será a Altice Labs a disponibilizar este tipo de soluções diretas ao consumidor final. Não está no seu DNA”, assume Bernardo Cardoso, que adianta que a empresa procura agora parceiros que permitam levar a SmartAL diretamente ao consumidor final.

A Voluntage4seniors é outra plataforma a pensar no bem-estar dos mais velhos, que tem alguns pontos de contacto com a SmartAL. Foi desenvolvida no âmbito da parceria Altice Labs na UA, que envolve a Altice Labs e a Universidade de Aveiro e baseia-se na ação de voluntários no apoio aos idosos. “O objetivo é que os utilizadores possam pedir ajuda para tarefas simples como mudar uma lâmpada, dar banho ao cão ou ir às compras”, explica Bernardo Cardoso.

Também neste caso, a televisão surge como interface de comunicação com o utilizador. “O display da informação é feito no televisor, mas o pedido do serviço pode ser feito por telefone, através do processamento de linguagem natural. A pessoa só tem de carregar num botão na televisão para lançar a aplicação, é-lhe feita uma chamada e o utilizador diz o que precisa e, em simultâneo, vê no ecrã a imagem associada ao serviço pedido. Todo o processo é feito através da voz com o output e as notificações no televisor. É lá, por exemplo, que surgirá a informação de que já existe um voluntário disponível para o serviço”, explica Bernardo Cardoso, que revela ainda que está a ser avaliada a possibilidade de incluir algumas destas funcionalidades na plataforma SmartAL.

A Voluntage4seniors foi desenvolvida em conjunto com associações de voluntários com quem a UA tem trabalhado e está atualmente numa fase de avaliação prática, com uma associação de Viseu.

Outra solução desenvolvida pela Altice Labs com foco na saúde e bem estar é a aplicação Fit Escola, criada para dar apoio ao projeto com o mesmo nome, lançado pela Direção Geral de Educação (DGE) e a Faculdade de Motricidade Humana (FMH). “O projeto FitEscola tem como objetivo promover hábitos de educação física e bons hábitos de movimento junto dos alunos do ensino secundário. A aplicação que nos foi pedido que desenvolvêssemos permite aos professores de Educação Física registar sistematicamente os resultados dos testes ou das avaliações que fazem de forma instantânea”, explica o responsável da Altice Labs.

O pedido da DGE e da FMH decorre do caráter pouco prático da aplicação inicialmente associada ao projeto. “É quase um excel gigante e torna-se pouco prática para usar durante a avaliação e por isso muitos professores acabam por não a usar”, diz Bernardo Cardoso.

Um dos primeiros objetivos da aplicação desenvolvida pela Altice Labs é dotar os professores de uma aplicação que possam usar no momento em que estão a fazer a avaliação. “Essa aplicação tem o pressuposto de poder funcionar offline – normalmente nos pavilhões não há cobertura nem de rede wi-fi nem de rede móvel – e a própria app tem metodologias para facilitar a introdução dos dados ao professor”, explica o responsável.

Numa fase subsequente, com mais e melhores dados, está previsto que os mesmos possam ser enviados ao encarregado de educação e eventualmente ao próprio aluno, já com alguns elementos de avaliação posterior.

Numa fase posterior, esta é uma solução que poderá vir a integrar também processamento de dados, nomeadamente através de sistemas de machine learning. “Poderão ser criadas algumas metodologias, recorrendo ao machine learning que permitam inferir um conjunto de indicadores. E também há a ideia de fazer uma recolha de dados longitudinal: passados dez anos existirão dados de uma geração inteira que podem, por exemplo, ser usados para perceber se determinadas políticas tiveram, ou não, efeito, nos índices de sedentarismo dos alunos do secundário”, explica Bernardo Cardoso.